Benin - Beninenses no Brasil, Brasileiros no Benin


Uma das coisas mais interessantes que eu aprendi sobre o Benin é que a relação Brasil-Benin é muito rica. Vamos destacar alguns aspectos para contar melhor essa história

Um certo "De Souza"

Essa história eu ouvi pela primeira vez lendo o livro um da trilogia do Laurentino Gomes, "Escravidão". Fiquei chocada ao saber que um Brasileiro tinha sido vice-rei e notório traficante de escravos em um país africano no século XVIII. Pois esse país africano era o Reino do Daomé e o nome dessa figura era Francisco Félix de Souza.

Como o mundo é um ovo, a história do De Souza se encontra com a história do Guezo, o Rei do Daomé que é retratado no filme "Mulher Rei". Foi graças ao Guezo que o De Souza assumiu o monopólio do trafico de escravos da região e se tornou um proeminete cidadão. Aprendi também, com o Eduardo Bueno em um vídeo excelente que ele publicou, que o Francisco Felix de Souza nasceu na Bahia, em algum momento da segunda metade do século XVIII, entre 1750 e 1770. O ano da sua morte é bem sabido, 1849, já em Ajudá, na África. 

Não se sabe muito bem como o De Souza foi parar na África, mas tudo indica, segundo o Eduardo Bueno, que ele tenha sido degradado (expulso, por ser "super boa gente", aqui do Brasil). No Daomé ele atuou como funcionário da Fortaleza de São João Batista, uma das mais antigas feitorias portuguesas na costa da África. Essa Fortaleza tem uma curiosidade, pois já entrou para o Guines book como a "menor colônia do mundo", visto que é um espaço, em território Beninense, pertencente a Portugal e guarnecido por alguns poucos guardas. Essa informação sobre a Fortaleza é de 1958, não sei como está hoje em dia. 

Planta do Forte de Ajudá em 1890

Agora o interessante dessa história do De Souza com a Fortaleza é que, na verdade, o cargo importante de Director da fortaleza era do irmão dele, que também tinha ido parar lá pela África, em algum momento de sua vida. Quando este morreu, o nosso querido De Souza, que era um servidor comum, assumiu o lugar seu do irmão, sem autorização de Portugal. Portugal ficou bastante tempo "nem ai" pra essa Fortaleza, deixando ela praticamente abandonada. Era um negócio fantasma perfeito, para um aspone picareta de marca maior como o Francisco Felix usar como desculpa para ser considerando estrangeiro "branco" e "homem de bem" no Benin, sem precisar se submeter às ordens do Rei, visto que estrangeiros não eram súditos. 

A história do De Souza cruza com a história do Guezo pois este Rei, antes de ser Rei, era príncipe, irmão do Rei de fato. O Guezo armou um golpe de estado contra seu irmão para assumir o trono. Porém, quem lhe ajudou no motim foi o nosso querido De Souza. O De Souza estava preso, a mando do Rei Adanozan, com quem teve um imbroglio por não ter recebido algumas pessoas escravizadas por quem tinha pago. O Rei se sentiu afrontado e mandou prender o De Souza. Nessa epoca o De Souza já era bem rico e influente, trabalhando como traficante de escravos há certo tempo e bem estabelecido "na profissão". 

O Guezo, ficou amigo do De Souza e foi lá se oferecer para liberta-lo, em troca de auxilio no motim contra seu irmão. Nosso amigou saiu da prisão, liderou um grupo de revoltosos e ajudou a derrubar o Rei e a empossar o Guezo. 

O Guezo estabeleceu uma parceria de vida com o De Souza. Permitiu que ele vendesse escravizados e outras coisas mais, como óleo de palma e lhe concedeu um título chamado de Chacha. O Eduardo Bueno diz que Chacha significa algo como "primeiro amigo", brother, best friend forever, do Rei, que seria o Dada. Existe uma versão que circula por ai que entende que chacha teria derivado do hábito do Francisco Félix de falar "já, já" para apresar as conversas. Tudo é possível, afinal sabemos que os ex-escravizados brasileiros que retornaram para Gana ficaram conhecidos como "Tabons", haja vista seu hábito de falar "tá bom" para tudo. 

O Chacha foi levando sua vida de grande empresário no Daomé, até que aconteceu uma coisa aqui no Brasil. A independência. Em 1822, o primeiro país do planeta terra a reconhecer a independência do Brasil foi o Daomé. O Francisco Felix chegou a oferecer para o Don Pedro I o Reino do Daomé como protetorado, mas acabou que não rolou. O chacha passa entao a se considerar cidadão portugues, ele que nasceu em Salvador, pois isso lhe concedia vantagens juridicas caso seus navios fossem parados pela Inglaterra, que nessa época já estava bem de olho nesse negócio de traficar gente. 

Quando o De Souza morreu, ele estava arruinado. Quer dizer, mais ou menos arruinado, algo tipo como o Eike Batista hoje em dia, que precisa viajar de classe executiva, essas coisas. Ele perdeu sua fortuna, provavelmente em virtude da ação dos britânicos contra o tráfico de pessoas. O Guezo liberou o comercio exterior (de gente e de coisas) para outros agentes, mas manteve-se fiel ao seu amigo até o seu fim, lhe emprestando dinheiro e lhe garantindo um empreguinho público até o fim da vida, lá na Fortaleza de São João Batista. É o famoso certo pelo certo, mesmo na vida errada.

Os descendentes do De Souza contam que ele morreu aos 94 anos, deixando mais de cinquenta viuvas e mais de 80 filhos. O que tem de De Souza no Benin, até hoje em dia não é brincadeira. O funeral do De Souza foi digno de um Chefe de Estado, tendo sido feitos inclusive sacrifícios humanos à mando do Rei Guezo, em sua homenagem. 

Na Agotimé

"Nã Agotimé" de Dalton Paula (2022) acervo do MASP. 

A Na Agotimé é a mãe do Guezo e tem uma história super interessante envolvendo o Brasil também. 

Na Agotimé foi Kpojitó, Rainha Mãe, esposa do Rei Agonglo. Agonglo era pai de Guezo, com Agotimé e de Adanozan com outra esposa. Adanozan, como sabemos, era o filho mais velho e herdeiro de Agonglo. 

Agonglo, contudo, teria preferência por ser sucedido por Guezo. Ele teria recebido uma revelação de um Sacerdote de que Adanozan seria um péssimo Rei e que levaria Daomé à ruina. Ele teria então nomeado Guezo como seu sucessor, que na época chamava-se Gapke. Entrentanto o Rei Agonglo foi assassinado com 31 anos, deixando o cenário político bastante caótico após sua morte. 

Adanozan não tinha idade para assumir o trono, então foi tutelado por uma regência palaciana, à lá Don Pedro II, até assumir sua maioridade. Quando assumiu o trono, Adanozan reestabeleceu o comércio de pessoas escravizadas, que havia sido suspenso durante o reinado de seu pai. 

Longe de ser consenso, Adanozan precisava lidar com diversas conspirações. Uma das principais opositoras do seu Reinado era Na Agotimé, que vinha articulando por baixo dos panos para que seu filho, Gapke, assumisse o trono. Quando soube disso, Adanozan mandou matar e prender geral. Mas para Na Agotimé, Adanozan tinha um destino pior: Vendeu a mãe de seu irmão como escrava em Ajudá. 

Quando Na Agotimé foi vendida, não se sabe onde foi parar. Sabe-se que os navios que partiam da costa de Ajudá iam tanto para a América do Sul, quanto para o Caribe. Existem alguns registros, contudo, que indicam com alguma consistência de que Guezo, após virar Rei, chegou a mandar embaixadores seus ao Brasil e a Cuba para procurá-la. Ela nunca teria sido encontrada, de acordo com as fontes mais confiáveis. 

Entretanto, em 1948, eis que está pelo Brasil, mais especificamente em São Luis do Maranhão, um pesquisador francês chamado Pierre Verger. Pierre Verger alega ter encontrado Na Agotimé em um terreiro de candomblé em pleno centro de São Luis, a Casa das Minas. 

Vamos explicar melhor pois não era intenção do Pierre Verger insinuar que a Na Agotimé era uma highlander: ele não encontrou a Na Agotimé em pessoa. Mas encontrou evidências altamente sugestivas da sua passagem pelo Brasil e por aquela casa. 

A Casa das Minas é um terreiro de origem minas-jejê, o que significa que foi fundada por negros da costa da mina, que é a costa dos escravos. Essa casa, diferente de casas mais tradicionais da Bahia, por exemplo, não cultuavam os orixás, mas sim os Deuses do Daomé, os Voduns. 

Até ai tudo normal, porque pessoas que vieram do Daomé espalharam sua crença por todo lugar. É por isso inclusive que o Caribe é tão associado com o Vodu. Porém, o diferente da Casa das Minas é que lá se cultuavam as divindades ancestrais da realeza Fom. O culto da família real dos Fom seria de conhecimento exclusivo da família real, sendo completamente extraordinário que pessoas que não fizessem parte da realeza participassem desse culto. E ai mais um detalhe: As divindades da Casa das Minas eram divindades cultuadas especificamente durante o reinado do Rei Agonglo. Foi possível observar que divindades do período anterior e posterior ao Rei Agonglo não era cultuadas, o que situa muita bem o tempo histórico das crenças da Casa das Minas. 

As fontes historicas indicam, portanto, com consistência, que a pessoa que levou esse culto à Casa das Minas tinha um conhecimento muito privilegiado do que era praticado dentro da família real nos tempos do Rei Agonglo. Como Daomé não traficava seus cidadãos e, menos ainda, membros da família real, a teoria desenvolvida por Pierre Verger é de que a Casa das Minas só poderia ter sido fundada pela única pessoa da família real da corte do Rei Agonglo que foi traficada nessa época: A Rainha Na Agotimé, que no Brasil foi rebatizada como Maria Jesuína, a primeira sacerdotisa da casa. 

É possível ter certeza dessa história? Não, não é possível. Ninguém da Casa das Minas, por exemplo, afirmava isso antes do Pierre Verger chegar com essa história, nem por tradição escrita, nem por tradição oral. Existem também alguns relatos de que a Na Agotimé teria sido sim, encontrada, mas em Cuba e ainda viva pela comitiva do Rei Guezo. Então não é uma história certeira, é uma suposição. Apesar de ser bastante consistente o fato de que só alguém da família real do Daomé teria conhecimento quanto ao culto praticado na Casa das Minas, não há nenhuma evidência concreta de que foi a Na Agotimé que trouxe esse conhecimento para lá. Pode ter sido alguém que aprendeu com ela, por exemplo, ou ainda um terceiro que foi traficado ou esteve no Brasil de forma livre, mas que não ficou documentado. Mas muita gente dá essa história como certa, como Thiago André, do Podcast História Preta e a própria Unesco, que reconhece oficialmente a Casa das Minas como parte do legado da família real de Daomé. 

A Casa das Minas existe até hoje e pode ser visitada no Centro Histórico de São Luiz. Sua importância é tamanha que foi tombada como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Iphan no começo dos anos 2000. 


Agudás

Poucas pessoas traficadas da África tiveram a sorte de retornar para sua terra natal, mas isso aconteceu com alguns. Essas pessoas são conhecidas na África como "retornados". Em alguns países eles têm denominações específicas, como os "tábons" em Gana. No Benin, eles são conhecidos como Agudás. 

Existem dois principais fenômenos que impulsionaram o retorno de africanos escravizados e/ou seus descendentes à sua terra natal. O primeiro desses fenômenos foi a Revolta dos Malês, na Bahia, em 1835. Esses negros de origem muçulmana revoltaram-se e tiveram importantes vitórias, liberando escravizados e matando diversos senhores da região. Após a revolta, alguns dos revoltosos foram degradados para a costa dos escravos e se estabeleceram em diversas regiões desta costa. O segundo movimento de retorno foi após a abolição da escravidão em 1888. Porém, ao longo dos séculos XVIII e XIX, pessoas escravizadas que conquistavam sua alforria de alguma forma, já faziam esse movimento de retorno. A maior parte nunca mais voltou à sua tribo de origem, visto que muitas tribos foram extintas ou tinham medo das autoridades locais ou famílias, que estiveram envolvidas na sua escravização. 

Esses retornados levaram em sua bagagem muito da cultura Brasileira. Então da mesma forma que muita coisa veio de lá para cá, como o Acarajé, teve muita coisa que foi de cá para lá, como a feijoada. 

A série do chef diamante no Benin, do UOL, é super interessante para entender essa troca. No Benin, o chef Diamante se deparou com um bolinho frito de feijão chamado acará. É o primo mais velho e original do Acarajé. O acarajé é um pouquinho diferente do acará. Um rapaz do Benin que é entrevistado pelo chef Diamante e que conheceu o Brasil, conta o susto que ele levou ao comer um acarajé gigante e cheio de recheio na Bahia. O de lá é um bolinho mesmo, sem os recheios todos. 

Já na casa de alguns descendentes do nosso amigo do bem, o querido senhor De Souza, o chef Diamante comeu uma feijoada à moda do Benin, que mais se parece com um tutu de feijão carioquinha do que com a nossa feijoada de feijão preto. Mas ele disse que é muito gostosa também. 





Uma coisa interessante sobre os retornados, de todas as regiões, é que é possível observar a influencia do Brasil na arquitetura: como muitos ex-escravizados que conseguiram retornar eram habitantes de grandes centros urbanos, especialmente Salvador, eles exerciam funções urbanas, como a de carpinteiro, marceneiro e pedreiro. Lá na África existem, então diversas edificações que lembram os centros velhos do Brasil, igualmente construídos por braços negros. 

Uma coisa interessante que eu descobri recentemente é que em 2003 a escola de samba Unidos da Tijuca fez um samba enredo em homenagem aos agudás. Aprendi isso com esse texto da Professora Mônica Lima, que conta um pouco da história dos retornados. 

Outra coisa interessante é que há registros de um ex-escravizado de origem Iorubá, do reino de Oió, que teria retornado para a África e se tornado um importante mercador de escravos, sendo responsável pela criação de alguns entrepostos na costa do Benin, entre eles o que dará origem à cidade de Porto Novo, capital constitucional do Benin. Essa distinção de capital constitucional é porque a sede do governo fica em uma cidade próxima, chamada Contonou. 

Eu achei um outro texto contando a história do João de Oliveira, esse negro forro que virou mercador de escravos, mas se eu for contar todas as histórias não vou chegar nunca no século 20, nem vou conseguir explicar porque se fala francês no Benin. Então por hoje ficamos por aqui e em breve seguimos nossa viagem pelo Benin, avançando um pouquinho mais na sua história. 

Au revoir!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Congo - Après les Belges