Benin - O Reino do Daomé
O Benin foi o primeiro país francófono pelo qual decidi "viajar". E que viagem: Passei os últimos dias percorrendo um reino africano repleto de história, mulheres guerreiras, Vodu e brasilidades.
Primeiro as primeiras coisas: como foi que eu fiz essa viagem sem sair do sofá de casa? Meus tapetes mágicos nesta aventura foram um podcast do História FM, todo dedicado à história do Daomé, com um professor historiador da UFPR, especialista em história da África; um filme chamado "Mulher Rei", com a inigualável Viola Davis, de 2022, sobre as Ahosi, as Amazonas do Benin; E uma série de três vídeos do UOL, que eu encontrei no Youtube, com um chef de cozinha chamado Diamante, que viajou para o Benin para conhecer as suas raízes e as raízes de vários elementos da culinária brasileira. À medida em que eu for contando sobre o meu passeio, vou trazendo alguns detalhes do que aprendi com cada um desses meus guias.
Mas onde raio fica onde o Benin? Bom, o Benin fica na costa ocidental da África, em uma região conhecida como "Costa dos Escravos". Esta costa dos escravos abraçava não só o que hoje é o Benin, mas seus vizinhos, por ser uma região de constante intercâmbio com os Europeus, notadamente os Portugueses, em busca de pessoas negras escravizadas para suas colônias na América.
O Reino do Daomé começou a se constituir na região do atual Benin por volta do século XVI, graças à ocupação deste território por uma etnia chamada Fom. O povo Fom funda a cidade de Abomé e esta passa a ser o coração do Reino. Uma coisa importante de citar é que os FOM não eram a única etnia presente naquele local, mas foi a que mais se destacou e acaba estabelecendo relações tão entremeadas com outras, que termina por incorporá-las, pelo menos na visão de quem contou essas historias todas, que foram os europeus. Infelizmente a tradição de registro da África dessa época era muito oral, então quem escreveu para a posteridade infelizmente não foi o povo Fom, nem seus vizinhos, aliados ou inimigos.
Existem muitas lendas e possíveis origens para o nome Daomé. Uma das mais populares é que, quando da chegada dos Fons na região, um líder tribal rival desafiou o Rei dos Fom e foi morto por ele. A cidade dos Fom foi, então, erigida sobre o local onde esse inimigo foi morto. Daomé significaria cidade do corpo, ou terra do corpo, em referência a esse corpo que tombou diante da pujança e bravura do povo Fom.
O povo Fom era um povo essencialmente guerreiro. Até aqui, tudo que estou contando eu aprendi no podcast do História FM. Mas eis que chega a hora de fazermos um link com o filme, "Mulher Rei". O Reino do Daomé se ocupava de basicamente duas coisas: da Guerra e da extração de óleo de palma, também conhecido como azeite de dendê (lembra qualquer coisa que a gente conhece?). Todo reino guerreiro que se preze tem um exército, só que os Fons, que não eram bobos nem nada, tinham dois. Eles tinham um exercito de homens e também um exército feminino, extremamente bem treinado e lendário, que aterrorizou inimigos locais e estrangeiros por séculos. Olha só esse trechinho do "Aventuras na História" falando sobre elas:
"Nansica, uma jovem soldada do reino de Daomé, no atual Benin, de cerca de 16 anos, se aproxima rapidamente de um sargento francês e o decapita com furor. Em seguida, tem seu corpo atravessado por uma baioneta e tomba de costas, braços estendidos para a frente. Na mesma batalha, um soldado gabonês de infantaria, recrutado pelos franceses, desarma outra militar de Daomé. Sem opção, ela rasga a garganta do inimigo com os próprios dentes."
Tá vendo só? Tá achando que é mole invadir a casa dos outros? Se liga ai.
Bom, esse trechindo do Aventuras na História é super compatível com o que eu ouvi no Podcast do História FM e vi no filme da Viola Davis. Elas eram casca grossa mesmo e tiveram um papel muito importante na libertação do Daomé em relação ao Reino o Oió, dos Ioruba. O Reino de Oió cobrava tributos de Daomé e lá pelas tantas o Daomé bota a galera de Oió para correr. Isso é bem retratado no filme, a propósito.
No filme, elas são as Ahosi. Aprendi no podcast que o nome Ahosi vem de Ahoso, que era o nome dado ao título de Rei. As Ahosi não podiam se casar, deviam ser preferencialmente virgens e eram tidas como esposas do Rei. Do ponto de vista prático, não eram, pois o Rei tinha as mulheres que eram esposas de fato, mas do ponto de vista formal, as Ahosi tinham esse status. Elas ja foram conhecidas por outros nomes também. O que mais perdurou, além de Ahosi, foi o de Mino, que pode ser traduzido como nossas mães.
No podcast, são faladas algumas coisas interessantes sobre o papel da mulher no Daomé. Não sejamos românticos, o Daomé estava longe de ser um matriarcado ou qq coisa igualitária do tipo, mas era uma sociedade que, por razoes culturais e possivelmente por necessidade, permitia às mulheres uma vida melhor, em muitos aspectos.
Vamos explicar melhor. Do ponto de vista cultura, observamos que a presença de um elemento feminino e masculino, essa complementariedade, existe desde o mito fundador do mundo na cultura Fom. A religião praticada pelos Fom é o Vodum (ou vodu). Vale mencionar que o Vodum não é uma religião exclusiva dos Fom, ela é compartilhada com outros grupos étnicos da Africa, com suas variações locais. A divindade máxima do Vodum é uma deusa, que se chama Nabuco. Nabuco tem dois filhos, um homem, que se chama Lissa e uma mulher que se chama Mao (essas grafias só deus sabe se estão corretas, tô escrevendo de orelhada do podcast). Esses dois irmãos se unem em um casamento espiritual e são os responsáveis pela criação e ordenação do mundo.
Nos vamos ver o reflexo dessa visão no fato de, por exemplo, todos os cargos políticos e as funções sociais entre os Fom terem um representante de cada gênero. Então o Ahoso, que era o Rei, tinha "ministros". Para cada "ministério", existia uma ministro homem e uma ministra mulher. Os Fom faziam também uma grande festa, em homenagem às conquistas do Daomé e à ancestralidade do Rei. Lá pelas tantas, nessa festa, que foi muitas vezes presenciada e narrada pelos europeus, era feita uma Assembleia, onde decisões eram tomadas. Pois nessa tal assembleia, homens e mulheres deveriam estar representados em igualdade numérica e de importância social.
Bom, quando falamos em elevação do papel da mulher por necessidade, existe uma questão. O Daomé era um estado guerreiro, que participava do comercio triangular da escravidão. Essa situação colocava o reino numa situação de, muitas vezes, os homens serem escassos. Uma das possíveis histórias por traz da criação do exército das Ahosi, é que em uma guerra contra o Reino de Oió, o Daomé teve muitas baixas militares. O Rei então teve a ideia de colocar algumas mulheres na parte de trás do exercito, para que, visto de longe, o inimigo achasse que o exercito do Daomé era enorme. Mito ou verdade, fato é que em algum momento entendeu-se que as mulheres podiam ser treinadas para a Guerra e o Daomé foi constituindo seu brutal e poderoso exército feminino.
Um coisa legal é que, tem uma hora no filme, que o Rei Gueso, aponta a a Nanisca, personagem da Viola, como "Mulher Rei". O podcast do História FM nos conta que de fato existia uma figura destacada, chamada Kpojitó, que seria um tipo de "mulher rei". Alias, o nome da Nanisca é inspirado em uma pessoa que realmente existiu. Em 1889 um marinheiro francês escreveu sobre uma guerreira ahosi de 16 anos que estava em treinamento. É possível que, apesar da grafia discretamente diferente do nome, a Nanisca seja a Nansica, que o texto do aventuras na história descreve.
Bom, acho que esse texto já deu para contar bastante coisa sobre o Daomé e essa história antiga do Benin. Vou deixar o que aprendi sobre a dominação francesa, o fim do império do Daomé, as correlações do Benin com o Brasil e a história mais recente (gente! rolou uma república popular comunista do Benin!) para uma próxima postagem. Eu também dei um belo rolê pelas ruas de Porto Novo e Cotonou pelo google maps. Vou contar tudinho, tudinho nas próximas postagens.
Au revoir!





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