Benin - Por que se fala francês no Benin?


Agora é hora de entender porque o povo do Benin fala francês. Para entendermos essa história precisamos analisar uma palavrinha: Imperialismo 

O imperialismo ou neocolonialismo era a grande onda da Europa na segunda metade do século XIX. Os vovôs, Portugal e Espanha, já tinham se lambuzado nessa brincadeira desde o século XV, pelo menos. Agora era hora de outros "players" entrarem na jogada. França, Inglaterra, Holanda, Alemanha, Bélgica e Itália afiariam suas facas e partiriam rumo à África. 


O que impulsionou o neocolonialismo foi a segunda revolução industrial e sua necessidade por matéria prima, mercados consumidores e novos territórios para investimento e escoamento de produção. A segunda revolução industrial, também conhecida como revolução tecnológico-científica, gerou uma crisezinha ali por volta de 1870, em decorrência da super produção. Nessa época, o mundo estava se tornando freneticamente veloz, graças a eletricidade. Com a produção funcionando na velocidade da luz e não mais à bafo de carvão, começou a ter coisa demais, para gente de menos na Europa. Havia também grande capital disponível para investimento e aí novos territórios passam a ser interessantes. 

Os Europeus, de longa data, estabeleciam entrepostos comerciais nas costas da África e da Ásia. Esse movimento se intensifica a partir da segunda metade do século XIX. Á medida em que o tempo passa, vai dando aquela vontade sem vergonha nos europeus de levar os dedos junto com os anéis: "E se a gente pegasse tudo pra gente?

Uma fonte super interessante que me permitiu entender melhor esse movimento foi o episódio sobre a partilha da África, do História FM. Lá o professor entrevistado, que é o mesmo especialista em História da África que fala no episódio sobre o Daomé, explica tudo sobre esse processo, destacando o papel da conferência de Berlin, de 1884. O professor explica que a invasão já estava em franco curso. A real função da conferência foi estabelecer regras para que as potencias não se estranhassem, quando dessem uma de bunda com a outra, conforme progrediam da costa para o interior. 

Aprendi coisas muito surpreendentes sobre a partilha da África. Por exemplo, os alemães tiveram uma experiência de campos de concentração e testes em prisioneiros na África durante essa época, que serviu de laboratório para o que aconteceu com os judeus durante a segunda guerra. O tal Leopoldo II da Bélgica era da pá virada e chegou a ser dono, ele próprio, de uma casa de campo muito singela ali pela África, que se chamava "Congo", já ouviu falar? Mas isso eu ainda vou contar, porque o Congo faz parte da nossa viagem francófona. 

Bom, no que tange ao Benin, a sua história com a França perpassa duas Guerras chamadas de Franco-Daomeneanas. As informações sobre a primeira Guerra Franco-Daomeneana são meio escassas, mas existe mais detalhes disponíveis sobre a segunda, que é a que culmina com a dominação francesa. 

Para entendermos o começo dessa história, precisamos entender o contexto de duas cidades portuárias da costa do Benin, Porto Novo e Cotonou. Porto Novo era governada pelo Rei Sodji. Esse pequeno reino era tributário do Daomé e Sodji pediu à França para virar seu protetorado e com isso se fortalecer frente aos inimigos, inclusive o Daomé. O Daomé não gostou nadinha disso. Para completar, rolou toda uma treta com a França em relação a Cotonou. A França achava que era dona de Cotonou, pois em 1868 tinha assinado um documento qualquer em um papel de pão com o Rei do Daomé. Só que o Daomé trucou e não deu moleza para os franceses. Começou a rolar, então, uma série de ataques do Daomé nas regiões "protegidas" pela França. 

A relação entre a França e o Daomé virou vinagre de vez em 1889. Neste ano as Ahosi promoveram um ataque a Danko, sede de outro pequeno reino vizinho. O rei de Danko foi pedir arrego para o Rei Tofa, então Rei em Porto Novo e ao governador francês Victor Ballot. O governador francês foi de barco até Danko acudir o reino amigo e declarou guerra contra Bèhanzin, então Rei do Daomé, para garantir a integridade dos protetorados franceses. Bèhanzin seria o último Rei Daomeniano. 

Dessa primeira investida dos franceses contra o Daomé, resulta a manutenção dos protetorados francês e o controle de Cotonou. Foi firmado um acordo de paz entre o Daomé e França, mas ninguém levou muito a sério. Um tempo depois, o Daomé volta a atacar uma área francesa. O governador Victor Ballot vai até a região investigar, mas seu barco é atingido e ele precisa bater em retirada. Bèhanzin se recusa a se desculpar com a França pelo incidente. A França então, declara Guerra ao Daomé em 1890. 

Os países se preparam para a Guerra por dois anos, até que em 1892 a França bloqueia a costa, impedindo que armas cheguem ao Daomé e inicia uma marcha rumo à Abomey. Durante a marcha são travadas batalhas importantes, como a Batalha de Dogba, a Batalha de Kpoguessa, a Batalha de Adegon, o Cerco de Akpa e a Batalha de Caná. Apesar de algumas baixas, inclusive de alguns oficiais, a França venceu amplamente estes conflitos. Em novembro de 1892, após uma tentativa fracassada de paz por parte do Rei Bèhanzin, Abomey é tomada pela França. Era o fim do Reino do Daomé e o começo da Colônia de Dahomey, o mais novo protetorado da França. 

Em 1904, a colônia de Dahomey é incorporada à "África Ocidental Francesa", que englobava todos os territórios franceses da região. A dominação francesa no que hoje é o Benin irá se estender até 1960, quando é proclamada a independência do país. O novo país independente passa a se chamar República do Daomé. Esses setenta anos foram tempo o bastante para que todas aquelas pequenas tribos locais pudessem se unificar em torno do idioma francês. Vale a pena destacar que outros dialetos ainda são falados na região. 

As décadas de 1960 e 1970 são marcadas por intensa instabilidade política na República do Daomé. Em um período de 12 anos ocorrem seis golpes de estado. Em 1975 uma facção de esquerda liderada pelo Major Kérékou toma o poder. A antiga república do Daomé passa então a se chamar "República Popular do Benin". Um pensamento importante nessa época era combater o "tribalismo". Acho que isso pode ter tido qualquer coisa a ver com a renúncia ao nome de Daomé. Até mesmo porque o Daomé estava longe de ser a única tribo da região. 

O Major Mathieu Kérékou governou até o começo dos anos noventa. Durante a fase socialista do seu governo, o Benin estatizou companhias estrangeiras, criou programas de educação, saúde e cooperativas agrícolas e sufocou as oposições. No começo dos anos 1990 é iniciada uma transição ao capitalismo. Nessa época ocorre uma abertura do país ao comércio internacional e é liberado o pluripartidarismo. 

Hoje em dia, o Benin é governado pelo empresário Patrice Talon. Consta aqui nas redes que Talon é de origem Fom, tendo nascido em Ajudá. É o homem mais rico do Benin e décimo quinto homem mais rico da África Francófona. Pelo que eu pude ver nesse vídeo do Le Monde Afrique, ele é um Liberal safado. Mas o Benin, durante seu governo, deixou a lista dos países mais pobres do planeta. 


Em Maio de 2024, ele esteve com uma comitiva no Brasil e foi recebido pelo Lula. Assinaram alguns tratados de cooperação. Uma coisa super heterodoxa que o Patrice Talon anunciou aqui no Brasil é que está em discussão, no Benin, um projeto de lei que visa conceder nacionalidade Beninense a todo afrodescendente do mundo que tenha interesse. São candidatos a esta solicitação "toda pessoa que, em sua genealogia, tem um ascendente africano subsaariano deportado para fora do continente no contexto do tráfico negreiro"

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